domingo, 2 de outubro de 2011

"A  Arvore das Palavras" – Teolinda Gersão

"O quintal e a casa também não tinham limite e tudo cabia dentro deles: ouviam-se, quando a gente se distraia e pensava, os passos furtivos dos animais selvagens, e dormindo sentia-se na cara do seu bafo. E quando se dormia assim fundo, os pés e os braços misturavam-se com o seu corpo bravo e sabiam de repente o salto, de um ramo para o outro, mesmo quando era preciso saltar sobre as torrentes e as quedas da água dos sonhos.

Então suspirava-se, respirando com a boca entre aberta nos lençóis, voltava-se a cabeça na almofada, mas continuava-se a correr na selva, poisando sem ruído as patas grossas, farejando o ar tépido da noite. Atento ao menor rumor, por entre as folhas. Percorriam-se longos caminhos, na floresta e na noite. Bebia-se enfim, a água procura ah muito. Baixava-se a cabeça até tocar superfície e partia-se de novo, no pé ligeiro do antílope.

Ou mergulhava-se todo o corpo na água, para matar a sede mais depressa, e era-se então um corpo lodoso e satisfeito de paquiderme afundado.

Toda a noite se andava livre, e podia-se trocar de pele a cada instante. Ser o corpo veloz da doninha e com a sua boca comer frutos sumarentos de mampsincha. Farejar o vento com o focinho irado da quizumba.

Podia-se ser tudo, e de manha voltava-se. Abriam-se os olhos, mas, mesmo de olhos abertos, nada era diferente. Saltava-se da cama com o pé fendido da zebra e escovavam-se as espelho os dentes aguçados do coelho ou da lebre. Lóia punha na mesa o leite e a fruta e devorava-se tudo com a boca de animal esfaimado. Saia-se a porta abanando a cauda.

O dia não quebrava os sonhos, podia-se dormir de olhos abertos, e a vida era gozosa e fácil como o jogo e o sonho. Podiam-se abrir os braços e gritar: Eu vivo – mas não era necessário esse gesto exultante e excessivo, as coisas eram tão próximas e simples quase não se reparava nelas."

                     Teolinda Gersão, A arvore das palavras, publicações dom Quixote (páginas 16,17)

 

 

Comentário:

Desta vez decidi fazer a opção "associação texto-imagem fundamentada" pois nesta pequena parte que li no livro " a arvore das palavras" de Teolinda Gersão esta faz referencia a muitas imagens que vê através do seu imaginário e sem duvida que estas são algumas delas como por exemplo os animais selvagens que faz referencia como a doninha que come os frutos sumarentos da mampsincha, ou ate aos dentes aguçados do coelho ou da lebre. Também decidi por a imagem da noite pois todos os factos que a autora refere no imaginário da sua consciência esta refere-se ao misterioso, ao escuro e as sombras da noite pois dá a sensação numa frase dela de não conhecer e de não se aperceber de onde estava como por exemplo "belria-se enfim, a água procurada há muito". Tudo o que relata são sonhos e sensações e compreendesse através deles que a personagem é muito aventureira e por isso nem a dormir descansa pois necessita de procurar e explorar o mundo á sua volta.

Estou a gostar muito de ler este livro e é surpreendente conhecer o mundo desta personagem e das intervenientes pois a autora evidencia pequenos pormenores acerca das personagens muito interessantes e criativos. Um deles é o facto de a personagem principal levar a vida como sendo um sonho, como sendo maravilhosa podemos observar uma citação em que refere isso mesmo como por exemplo "o dia não quebrava os sonhos, podia-se dormir de olhos abertos, e a vida era gozada e fácil como o jogo e o sonho."

Gostei principalmente desta parte do livro pois sente-se uma alegria, uma liberdade, um fascínio nas palavras da personagem pois ela gosta de viver e gosta de gritar "eu vivo". Sem duvida que esta é uma personagem encantadora e muito positiva, e penso que ela me ira levar ainda mais através dos seus sonhos ao longo das paginas deste livro.

 

Trabalho elaborado por: Alexandra Carvalho, nº2, 11º E

A ronda da noite – Agustina Bessa -  luís

"Martinho apertou, sem querer, o braço da avó ao ter diante dos olhos a pesada pedra do túmulo. Era de facto terrível, com as argolas de ferro enferrujadas e o musgo negro que a cobria. "Não vou deixar que a metam aqui" – pensou, desolado. E  um toque de pó-de-arroz na face dela, junto á orelha esquerda, enterneceu-o como o rasto duma mulher bonita. " Até ao fim somos amantes uns dos outros" – pensou, triste. A educação de mulheres dera-lhe um descaramento ritual, sem nada de perverso, só amadurecido pela reflexão.

Deteve-se a olhar para as campas cobertas de inscrições saudosas, de flores caras, de candeeiros vermelhos dentro dos quais uma chama curta ia sucumbindo. A morte tinha-se tornado uma vaidade mais, uma festa de anos em que só faltava o «parabéns a você» mas não a mesa abundante.

                                    Agustina Bessa – luís, a ronda da noite, Guimarães editores (pagina 11,12)

 

Comentário:

Eu escolhi este excerto pois chamou-me a atenção devido a Martinho não querer que quando a sua avó falece-se e a metessem naquele sitio com aquelas condições, penso que ninguém gostaria de estar ali.

Neste excerto mostra o quão Martinho gosta da sua avó, e o quão é importante para ele, pois Martinho foi criado por mulheres e esse facto dá-lhe um descaramento sem nada de perverso, apenas amadurecido pela reflexão.

Martinho olhou para as campas que estavam cobertas de saudações, de flores caras, de velas vermelhas, para ele a morte tinha-se tornado numa vaidade mesmo nume festa de anos sem a típica frase de desejar os parabéns.

 

Trabalho elaborado por: Daniela Lima, nº3, 11ºE

"Passagem do cabo" – Maria Ondina Braga

 

"Terra que, aliando ao silencio da savana, o fragor, o furor dos rios caudalosos, acaba estigmatizada como os místicos, nas queimadas do cacimbo.

Falo da terra, dos mistérios, os tesouros da terra. Os capinzais que na monção crescem mais alto que um cavalo, os palmares esguios e baloiçantes como guiões, o embondeiro enorme e solitário. Falo da vegetação. Falo dos bichos. Que bichos, francamente (mal parece em pátria de elefantes), bichos ainda só conheço os da noite, e destes (mal parece em país de feras), destes os mais frágeis e quase familiares. São as borboletas de asas negras, por um pouco tão vastas como as dos pardais, que aparecem a seguir ás chuvas. As osgas cor de serapilheira, os seus vultos fluidos pelos tectos em noites de luar. Os grandes morcegos espectrais que nos levam a castelos assombrados, muralhas, masmorras, torreões, de filmes de terror. Já de dia, lagartos do tamanho de mãos abertas e cor azul-ferrete, pelos muros ao sol. Os lagartos importunam-se em pesadelos. No recreio, todavia, as alunas arremessam-lhes a bola e eles, pumba, tal se tivessem uma mola no bucho, e de novo quedos, ansiosos e azuis na cal da parede. Sonhar com lagartos em Angola traz-me a infância em Braga. Quando ia ao quintal ao luscofusco, colhia um ramalhete de brincos-de-princesa, vinha com uma lagartixa ao peito como um broche. Sardaniscas pálidas, de olhinhos brilhantes. Depois, no sono, esses bruscos bichinhos. Sonhos, não obstante (que esquisito!), associados ao céu."

 

                                         Maria Ondina Braga,  passagem do cabo, editora caminho (página 18)

 

 

Comentário:

Este excerto captou particularmente a minha atenção pois a autora Maria Ondina Braga retrata a paisagem que observou quando se encontra em Angola comparando-a e relembrando-a á sua infância em Braga. Assim como podemos ver a autora faz uma descrição pormenorizada e atenta da paisagem. Fala da terra, da vegetação e fala dos "bichos". O que atrai mais a sua atenção não são as feras que ela esperava ver mas os bichos mais frágeis que lhe são tão familiares como: as borboletas, as osgas, os morcegos que a transportavam a casas assombradas de filmes de terror mas principalmente os lagartos que lhe refrescam a mente de memorias tão importantes e queridas da sua infância em Braga. Assim neste pequeno excerto a autora Maria Ondina refere como dois sítios tão diferentes, tão contrastantes e longínquos podem ter tantas semelhanças em comum e lhe podem trazer inúmeras recordações do seu velho passado.  

 

Trabalho realizado por: Cristiana carvalho, nº 10, 11ºE