"Passagem do cabo" – Maria Ondina Braga
"Terra que, aliando ao silencio da savana, o fragor, o furor dos rios caudalosos, acaba estigmatizada como os místicos, nas queimadas do cacimbo.
Falo da terra, dos mistérios, os tesouros da terra. Os capinzais que na monção crescem mais alto que um cavalo, os palmares esguios e baloiçantes como guiões, o embondeiro enorme e solitário. Falo da vegetação. Falo dos bichos. Que bichos, francamente (mal parece em pátria de elefantes), bichos ainda só conheço os da noite, e destes (mal parece em país de feras), destes os mais frágeis e quase familiares. São as borboletas de asas negras, por um pouco tão vastas como as dos pardais, que aparecem a seguir ás chuvas. As osgas cor de serapilheira, os seus vultos fluidos pelos tectos em noites de luar. Os grandes morcegos espectrais que nos levam a castelos assombrados, muralhas, masmorras, torreões, de filmes de terror. Já de dia, lagartos do tamanho de mãos abertas e cor azul-ferrete, pelos muros ao sol. Os lagartos importunam-se em pesadelos. No recreio, todavia, as alunas arremessam-lhes a bola e eles, pumba, tal se tivessem uma mola no bucho, e de novo quedos, ansiosos e azuis na cal da parede. Sonhar com lagartos em Angola traz-me a infância em Braga. Quando ia ao quintal ao luscofusco, colhia um ramalhete de brincos-de-princesa, vinha com uma lagartixa ao peito como um broche. Sardaniscas pálidas, de olhinhos brilhantes. Depois, no sono, esses bruscos bichinhos. Sonhos, não obstante (que esquisito!), associados ao céu."
Maria Ondina Braga, passagem do cabo, editora caminho (página 18)
Comentário:
Este excerto captou particularmente a minha atenção pois a autora Maria Ondina Braga retrata a paisagem que observou quando se encontra em Angola comparando-a e relembrando-a á sua infância em Braga. Assim como podemos ver a autora faz uma descrição pormenorizada e atenta da paisagem. Fala da terra, da vegetação e fala dos "bichos". O que atrai mais a sua atenção não são as feras que ela esperava ver mas os bichos mais frágeis que lhe são tão familiares como: as borboletas, as osgas, os morcegos que a transportavam a casas assombradas de filmes de terror mas principalmente os lagartos que lhe refrescam a mente de memorias tão importantes e queridas da sua infância em Braga. Assim neste pequeno excerto a autora Maria Ondina refere como dois sítios tão diferentes, tão contrastantes e longínquos podem ter tantas semelhanças em comum e lhe podem trazer inúmeras recordações do seu velho passado.
Trabalho realizado por: Cristiana carvalho, nº 10, 11ºE