sexta-feira, 30 de setembro de 2011

"Caim", de José Saramago

"Caim" - José Saramago

"Quando o senhor, também conhecido como deus, se apercebeu de que adão e eva, perfeitos em tudo o que apresentavam à vista, não lhes saía uma palavra da boca nem emitiam ao menos um simples som primário que fosse, teve de ficar irritado consigo mesmo, uma vez que não havia mais ninguém no jardim do éden a quem pudesse responsabilizar pela gravíssima falta, quando os outros animais, produtos, todos eles, tal como os dois humanos, do faça-se divino, uns por meio de mugidos e rugidos, outros por roncos, chilreios, assobios e cacarejos, desfrutavam já de voz própria. Num acesso de ira, surpreendente em quem tudo poderia ter solucionado com outro rápido fiat, correu para o casal e, um após o outro, sem contemplações, sem meias-medidas, enfiou-lhes a língua pela garganta abaixo. Dos escritos em que, ao longo dos tempos, vieram sendo consignados um pouco ao acaso os acontecimentos destas remotas épocas, quer de possível certificação canónica futura ou fruto de imaginações apócrifas e irremediavelmente heréticas, não se aclara a dúvida sobre que língua terá sido aquela, se o músculo flexível e húmido que se mexe e remexe na cavidade bucal e às vezes fora dela, ou a fala, também chamada idioma, de que o senhor lamentavelmente se havia esquecido e que ignoramos qual fosse, uma vez que dela não ficou o menor vestígio, nem ao menos um coração gravado na casca de uma árvore com uma legenda sentimental, qualquer coisa do género amo-te, eva. Como uma coisa, em princípio, não deveria ir sem a outra, é provável que um outro objectivo do violento empurrão dado pelo senhor às mudas línguas dos seus rebentos fosse pô-las em contacto com os mais profundos interiores do ser corporal, as chamadas incomodidades do ser, para que, no porvir, já com algum conhecimento de causa, pudessem falar da sua escura e labiríntica confusão a cuja janela, a boca, já começavam elas a assomar. Tudo pode ser. Evidentemente, por um escrúpulo de bom artífice que só lhe ficava bem, além de compensar com a devida humildade a anterior negligência, o senhor quis comprovar que o seu erro havia sido corrigido, e assim perguntou a adão, Tu, como te chamas, e o homem respondeu, Sou adão, teu primogénito, senhor. Depois, o criador virou-se para a mulher, E tu, como te chamas tu, Sou eva, senhor, a primeira dama, respondeu ela desnecessariamente, uma vez que não havia outra. Deu-se o senhor por satisfeito, despediu-se com um paternal Até logo, e foi à sua vida."

José Saramago, Caim, Editora Caminho (pp.11-13)

Comentário:

Neste excerto do livro "Caim", Saramago destaca um episódio em que Deus (ser divino, que é bastante criticado na obra), Pai Todo-Poderoso e perfeito, se esquece de dar a língua (idioma/órgão) a Adão e Eva, primeiros habitantes humanos na Terra, criados à sua imagem. Para corrigir tal esquecimento e imperfeção, coloca-a à força na boca de cada elemento do casal, fazendo-lhes depois perguntas para confirmar o seu funcionamento. Por fim, pensando ter completado os seus "projectos", retira-se, satisfeito.

Como se pode observar, José Saramago fala sobre Deus como se ele fosse uma pessoa como todas as outras (refere-se a Ele com letra minúscula), e dizendo que, tal como o ser humano, sua criação, Deus também cometeu erros (este já atrás referido e o esquecimento da colocação do umbigo, mais adiante na obra), defendendo a teoria de que errar não é só humano, mas igualmente divino; do ponto de vista do escritor, ninguém é perfeito, nem mesmo o Supra-Sumo, criador da Humanidade.

O autor, assumidamente ateu, revela, no entanto, um grande conhecimento bíblico, misturando várias histórias deste grande livro e envolvendo as personagens em variadas peripécias, reproduzindo estratos da Bíblia, ora fielmente, ora recorrendo ao imaginário (por exemplo, quando Caim encontra Abraão e o impede de sacrificar o seu filho Isaac em nome do Senhor). Saramago gosta de provocar, pondo em causa as decisões do Todo-Poderoso, colocando-o na pele de um mentiroso, um corrupto, uma figura em que não se deve confiar.

Mesmo sendo Cristão, estou a gostar bastante da obra e recomendo-a a todos os que queiram entrar com o pé direito na escrita de José Saramago, visto que é uma obra leve e de fácil compreensão.

 
 
Trabalho realizado por Nuno Simão Carvalho, nº19, 11ºE